Aquele abraço
Projeto de filme 16mm prontinho, equipamentos emprestados do departamento de cinema da ECA, e lá fomos nós, umas 30 ou 40 pessoas (entre população fixa e flutuante) rumo à Praia da Baleia, no litoral norte de São Paulo, casa dos pais do Ricardo. Lembremos que a Baleia, na época, era um local selvagem: estrada de terra com poças atolentas de barro, de rasgar o pneu do fusca azul — sim, rasgar, e não furar —, ninguém sabendo dizer onde estávamos. Até que chegamos a uma casa ostensivamente... branca.
Dormimos espalhados pelas colchões que haviam nos quartos, no chão da sala, na varanda. A estudante de teatro compridona perambulou pela casa só de calcinha e camiseta enquanto alguém tirava Black Bird no violão. Mas ninguém reclamou: nos anos 70, isso era o mínimo que se esperava de uma atriz de teatro de verdade, ainda mais compridona. Choque sob controle. Uma outra lá, bastante grávida, contou que estava decidida: parir o filho in natura, no sertão nordestino, numa palhoça. Era o mínimo que se esperava de uma outra moça lá mais descolada que nós, a maioria.
No dia seguinte, entre fatias esfarelentas de pão pullman com requeijão e goles de suco de uva, a equipe de produção esfregou urucum no corpo dos proto-atores que deviam fazer papéis de indígenas, meu namorado da estação incluído. Urucum é uma meleca que deixa a pele da gente em tons de vermelho-xingu. E então nos enfiamos na Mata Atlântica. Torturados por enxames de mosquitos borrachudos, equilibrávamos temerariamente o tripé da câmera na beira do rio, todo mundo melado e escorreguento de suor e urucum, caindo pelas tabelas do riacho, padecimento feliz.
Na volta, ao final da tarde, braços, pernas, barrigas, caras, bocas e bundas carimbavam de urucum a casa ostensivamente branca da (dizíamos) burguesia. Senti aquele tipo de vergonha contrabandeada de terceiros ao ver Ricardo esfregando um paninho nas paredes, tentando devolver o branco original aos sofás, quieto, olhar levemente ressentido, enquanto o resto da trupe fumava maconha, comia mais pão pulmman e bebia o resto de suco de uva. Veio a primeira madrugada. Continuísta amadora, de cronômetro e prancheta sempre em punho, eu tinha que decidir entre seguir o resto da semana ali ou voltar a São Paulo, onde um emprego nada-a-ver como caixa de banco me esperava, com a promessa de um salariozinho de sobrevivência. Entrei no mar escuro, salguei as picadas dos mosquitos. Viver a vida ou viver a vida? Difícil escolher.
No dia seguinte, me escoltaram de Opala pelo lamaceiro interminável até o ônibus que iria para a capital. Beijos, mochila nas costas, bata molhada de chuva, uma solitária poltrona de couro sintético, água escorredendo na janela.
Sabe que eu nunca perguntei ao Ricardo se deu pra tirar as manchas de urucum?