25/11/2009

devaneio # 10

definição

não é pau
não é pedra
vontades vãs


22/11/2009

devaneio # 9

noite

batatinha quando nasce
ninguém presta a atenção
vai direto ao Pão de Açúcar
cavouca uma refeição
e então ali face a face
no caixa vinho, alface
afagos na solidão
já são duas da manhã
quem se esquece?
queijo é queijo, pão com pão

15/11/2009

na faixa


Recaída de chico-buarquice

"O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz"

10/11/2009

enquanto corria a barca # 4

Aquele abraço

Projeto de filme 16mm prontinho, equipamentos emprestados do departamento de cinema da ECA, e lá fomos nós, umas 30 ou 40 pessoas (entre população fixa e flutuante) rumo à Praia da Baleia, no litoral norte de São Paulo, casa dos pais do Ricardo. Lembremos que a Baleia, na época, era um local selvagem: estrada de terra com poças atolentas de barro, de rasgar o pneu do fusca azul — sim, rasgar, e não furar —, ninguém sabendo dizer onde estávamos. Até que chegamos a uma casa ostensivamente... branca.

Dormimos espalhados pelas colchões que haviam nos quartos, no chão da sala, na varanda. A estudante de teatro compridona perambulou pela casa só de calcinha e camiseta enquanto alguém tirava Black Bird no violão. Mas ninguém reclamou: nos anos 70, isso era o mínimo que se esperava de uma atriz de teatro de verdade, ainda mais compridona. Choque sob controle. Uma outra lá, bastante grávida, contou que estava decidida: parir o filho in natura, no sertão nordestino, numa palhoça. Era o mínimo que se esperava de uma outra moça lá mais descolada que nós, a maioria.

No dia seguinte, entre fatias esfarelentas de pão pullman com requeijão e goles de suco de uva, a equipe de produção esfregou urucum no corpo dos proto-atores que deviam fazer papéis de indígenas, meu namorado da estação incluído. Urucum é uma meleca que deixa a pele da gente em tons de vermelho-xingu. E então nos enfiamos na Mata Atlântica. Torturados por enxames de mosquitos borrachudos, equilibrávamos temerariamente o tripé da câmera na beira do rio, todo mundo melado e escorreguento de suor e urucum, caindo pelas tabelas do riacho, padecimento feliz.

Na volta, ao final da tarde, braços, pernas, barrigas, caras, bocas e bundas carimbavam de urucum a casa ostensivamente branca da (dizíamos) burguesia. Senti aquele tipo de vergonha contrabandeada de terceiros ao ver Ricardo esfregando um paninho nas paredes, tentando devolver o branco original aos sofás, quieto, olhar levemente ressentido, enquanto o resto da trupe fumava maconha, comia mais pão pulmman e bebia o resto de suco de uva. Veio a primeira madrugada. Continuísta amadora, de cronômetro e prancheta sempre em punho, eu tinha que decidir entre seguir o resto da semana ali ou voltar a São Paulo, onde um emprego nada-a-ver como caixa de banco me esperava, com a promessa de um salariozinho de sobrevivência. Entrei no mar escuro, salguei as picadas dos mosquitos. Viver a vida ou viver a vida? Difícil escolher.

No dia seguinte, me escoltaram de Opala pelo lamaceiro interminável até o ônibus que iria para a capital. Beijos, mochila nas costas, bata molhada de chuva, uma solitária poltrona de couro sintético, água escorredendo na janela.

Sabe que eu nunca perguntei ao Ricardo se deu pra tirar as manchas de urucum?

03/11/2009

enquanto corria a barca # 3

A história de A.

É claro que esta não é “a” história dela. A história de A. é muito mais do que sei e do que tenho para contar. Eu ou qualquer outra pessoa. Uma vida é sempre muito mais do que aquilo que mostra, do que aparenta, e talvez só a própria pessoa conheça tudo. Será? Não sei de ninguém com autoconhecimento absoluto, só relativo. Enfim. Acontece que, como acontece em todas as histórias, a história de A. que vou contar é um recorte bastante limitado, panorama visto de um único lado da ponte, e que só por muita mágica corresponderia ao que A. poderia dizer de A..


Imagine Yves Saint-Laurent, e então conjugue o verbo em tonalidades do feminino. Era bem assim: rostão enorme, quadrado, óculos de aros pretos quadrados, lábios fechados, riscados de ponta a ponta em sorriso de Gioconda. Alta, magra. Angulosa. Roupa tão clássica que não chamava a atenção. Sapato caro, bolsa idem. Cabelos lisos, pretos, presos numa fivela de prata atrás da nuca muito alva, cabelos inacreditável e cintilantemente pretos. Olhos pretos. Jóia rara.


A.não se contentava em ser fisicamente diferente dos hippongas erquerdóides que reinavam na ECA do final do anos 1970: desafiava. Lia O Estado de S. Paulo. E gostava. Fumava um cigarro atrás do outro sem tossir, e erguia as sobrancelhas muito pretas e bem desenhadas quando a gente torcia a boca sobre o Estadão, sorria: “Ué, por que não?” A., secretária de um médico famoso, solteirona que provavelmente deu de estudar jornalismo por falta do que fazer à noite, devia ser um acidente de percurso do vestibular, uma aberração a que toda universidade está sujeita. Era tão irritantemente paciente com a nossa sôfrega ânsia juvenil de querer quebrar tudo e arrebentar com tudo que, desconfiávamos, só podia ser por se sentir superior. Tudo bem, tinha uns 5, 6, 8 anos mais que a gente. E lançava para nós aquele sorriso lacrado de lábios estendidos, bem maquiados. Gamamos nela, claro. Mas ninguém teve coragem de dizer isso na cara, para ela.


Um dia, um amigo mais chegado de A. sussurrou: caretice, o quê? A. tinha um amante! Não... Sim!!! Quer dizer, ela é que era amante de um homem. Um sujeito casado,justamente o chefe, o médico famoso. E isso há muito tempo. Sabiam que A. é uma escrava sexual do cara? É, sim!! Parece que o médico famoso exigia — sim, e-xi-gi-a — que ela sempre pegasse ali embaixo, no mais excitado dele, era isso o tempo todo, em casa, no carro, no restaurante. O homem pedia que A. pegasse nele diret, e A. pegava. “Ué, por que não?” Silenciosamente, gamamos ainda mais nela, uma agulhada leve de inveja cutucando moças e rapazes do curso noturno de Jornalismo. Quem diria... Aquele monumento ao conservadorismo, exuberante na intimidade da qual não compartilhávamos nem em pensamento, era capaz de detonar um despudor incontrolável, tesão desabrido, texturas de pele, ardor de homem suplicante, desejoso e recompensado. Que mulher era aquela, que nem imaginávamos existir, quanto mais ser? Gamamos e invejamos A. da maneira mais indefesa: solene.


Pouco tempo antes da formatura, A. segredou ao tal amigo que pedira demissão. Queria ficar uns dias em casa. Até que decidiu vedar as janelas, destampar o forno da cozinha o e abrir o gás.