Eu estava com os jornais do dia caídos no colo, perguntando-me como o país consegue permitir tantos crimes institucionais em plena democracia, quando uma roda de conversa ao lado chamou a atenção. A mulher falava alto. O olhar que veio junto do comentário era de excitada e mal-disfarçada alegria, impressão que se reforçou pelo sorriso cheio de dentes, brilhantes como na propaganda da televisão:
-- Gente, o Gustavo anda impossível!
Gustavo é um sujeito de cinco anos de idade.
-- A escola me chamou, imagine que ele agora deu de cobrir um amiguinho de porrada!
Como é que alguém coberto de porrada pode ser chamado de “amiguinho” do desferidor da dita porrada, isso ela não explicou. Preferiu manter o foco no personagem principal: Gustavo.
-- E olha que não foi uma vez só, não! É isso todo dia, direto!
O sorriso lubrificado pela saliva de mãe e o olhar incisivamente feliz não permitiam que a audiência pudesse esboçar outra reação que não fosse abrir aqueles ah-oh desamparados de quem acompanha, indefeso, um relato.
-- Sentamos com ele pra conversar: “Gustavo, a mamãe bate em você? O papai bate em você? Alguém por acaso já bateu em você alguma vez na vida? Então o que é isso, meu amor?
Era exatamente essa a pergunta surda que ressoava na roda: o que é isso?
-- Aí, quando chegamos na escola, nós descobrimos – concluiu a mulher, professora universitária com mestrado e a caminho do doutorado. – O amiguinho é a cara do priminho do Gustavo, hahaha!!!
As pessoas que ouviam a história de Gustavo discretamente olharam a barriga da mãe dele, que já aponta rumo ao sétimo mês de gravidez. E se puseram a calcular.
1 comentários:
hahahahahaha!
a série "abominável..." promete.
bjs.
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