28/12/2009

Cachorrismo

-- Ai, ele de novo...

Filhinha ficou meio contrariada quando soube que dividiria o banco traseiro do carro com o cãozinho de uma amiga na viagem de réveillon. Que é chato, é, não resta dúvida. Pessoas que levam animal de estimação para passeios em grupo vivem no mesmo planeta dos que arrastam seus bebezinhos para programas adultos em bares, restaurantes, cinema e teatro: enfiam seus filhotes numa situação estressante, não se mancam das limitações que acabam impondo aos outros, e ainda esperam que todo mundo ache seus bibelôs uma gracinha — mesmo quando a criança é chata, mimada ou desagradável, mesmo que o cachorro rosne, morda, babe e não pare quieto. Mas o caso é que o Casé vem a ser um schnauser até bem bonitinho. Quase nunca late e jamais foi flagrado esfregando sua carência erótico-afetiva na perna mais próxima. A dona é responsável, não mistura cachorro com areia de praia, e Casé sabe esperar. Qual o problema, então?

-- Hummm... É um cachorro com excesso de personalidade.

Já comecei a gostar do Casé. Filhinha explicou o que vem a ser excesso de personalidade canina: uma espécie de ansiedade para interagir com humanos e se fazer notar, intrometer-se onde não é assobiado. E deu um exemplo: imaginem que, em toda virada de ano, em algum momento essa turma de jovens se junta para ler poemas especialmente escolhidos para a ocasião; e o Casé se posiciona em nada menos que o centro da roda, muito atento a cada declamação. Às vezes ergue as orelhinhas, às vezes apóia o focinho nas patas dianteiras, esparramado no chão, meditativo; ou fica zanzando pra lá e pra cá, cheirando sem muito interesse, em ostensiva demonstração de enfado, como que a dizer que a seleção poética podia ser melhor. Depois dessa, eu não gostava apenas: estava apaixonada pelo Casé.

-- Alô? Mãe? Tá me ouvindo?

Filhinha ligou pra dizer que todos chegaram bem, faz um baita calor, a casa é muito confortável e a paisagem, linda. Houve um único incidente. Calhou de mais uma moça, com quem ela dividiria o quarto, também levar seu cachorro. Mas não é um caso banal de cachorrismo: não contente de levá-lo para a viagem, a garota também o leva para a cama: dormem os dois abraçados, aquele cheiro de cachorro suado madrugada adentro, e a qualquer movimento ao lado o totó desanda a latir, furioso, demora para se acalmar. Na manhã seguinte, Filhinha interrompeu o café da manhã de dona-e-cão (ambos dividindo a mesma tigelinha de ração) para pedir que o dito cujo passasse a dormir fora do quarto. Ofendida, a moça mudou-se com mala, cuia e coleiras para a casa vizinha.

Tem cachorro que presta atenção em poesia, tem gente que come comida de cachorro. Filhinha aprendeu que a vida sempre pode ser pior.

4 comentários:

Anônimo disse...

NESSE MUNDO CÃO

Há cachorros, como o Casé, que parecem dotados da maior qualidade humana – a razão.
Por outro lado, há donos que partilham com o seu querido cachorro a mesma – ração.

Abraço, Jô

Rosangela disse...

Jô, poeta, que honra a sua visita! E ainda trocadilhando tão brilhantemente (pra variar...).
Obrigada!
beijos, Rô

Contenti disse...

Conheço dessas pessoas que transformam o bicho em filho. Um saco.
Melhor ter um canário da terra.

Rosangela disse...

Oi, raquel, que saudades!
Falando em canários, cometi recentemente um conto sobre os próprios. Quando ficar pronto te mostro...
beijos,