17/12/2009

Na companhia de homens e loiras

Falha minha (mais uma, entre tantas), só recentemente li Dorothy Parker com a devida atenção. Big Loira e Outras Histórias de Nova York, um buquê de contos e crônicas traduzidas por Ruy Castro e publicadas em 1987, está esgotado. Mas era uma noite arrastada de plantão na faculdade, passei na biblioteca para arranjar companhia, catei o livrinho. Li de uma enfiada, como se diz. E o plantão era tão arrastado que ainda deu tempo de entrar no Google e pesquisar mais sobre a autora. Descobri que também escreveu poemas, mantendo a gaiatice corrosiva e inteligente. Tipo assim:


RÉSUMÉ
Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp;
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


(CONCLUSÃO
Navalhas machucam;
Rios são úmidos;
Ácidos mancham;
E drogas dão câimbra;
Armas são ilegais;
Nós escorregam;
Gás fede;
Melhor viver.)



Pra quem é tão ignorante sobre Mrs. Parker como eu, é bom situar a personagem. Nasceu no finalzinho do século XIX e viveu 74 anos em Nova York, como uma das três ou quatro felizardas de uma roda de intelectuais que tomavam uísque em xícaras de chá no bar do Hotel Algonquin durante a Lei Seca. Fez crítica de literatura e teatro, trabalhou como roteirista e dialogue writer em Hollywood. Casou três vezes — duas delas com o mesmo cara, em eterna recaída, até que a morte os separou.


Muita coisa interessante puxa a atenção sobre Dorothy Parker. Mas uma, particularmente, me permitiu fazer uma correção importante. Sempre ouvi falar que ela era a língua afiada que picava em pedacinhos tudo o que fosse suculentamente burro, ignorante e careta, especialmente as mulheres. Claro que quem dizia isso era homem, do tipo que ou está mal informado, ou mal intencionado, ou mal treinado na leitura, ou tudo isso junto. Pelo menos literariamente falando, as personagens femininas das histórias dela são sempre monumentos centrais, ilhas cercadas de solidão por todos os lados, inclusive por cima e por baixo – se é que me endentem. Às vezes ridículas, às vezes patéticas. Mas sempre personagens inteiras, com um protagonismo carnal, palpável, concreto, perigosamente próximo de todos nós, e talvez por isso mesmo tão perturbadoras. Hazel, a big loira que nomeia o livro (Big Blonde, conto premiado, foi originalmente publicado numa revista popular, em 1929) é a boasuda que passa de mão em mão — ou de man-and-man —, sempre aditivada por uma garrafa de uísque e pelos mais previsíveis elogios masculinos; nas raras vezes em que ameaçou expressar algum sentimento que não fosse excitante, foi severamente repreendida e reconduzida ao posto de gueixa ocidental; mas seu olhar permanentemente ausente e a descrição de seu dias que só começam quando cai a tarde revelam a complexidade trágica da personagem, cuja vivência é anestesiada por ser a pessoa que os outros querem que ela seja. Lembra muito a sexy Roslyn que Arthur Miller criou para sua Marilyn Monroe em The Misfits, dirigido por John Huston em 1961, sintomaticamente traduzido para o português como Os Desajustados.


Claro que Dorothy Parker sabia muito bem o que é ser mulher. Sobretudo, o que é ser mulher na companhia de homens, e muito mais sobretudo ainda quando essa mulher não tem medo de entrar bonito na conversa. Tenho um grupo de amigos, quase todos jornalistas, que de vez em quando se reúnem em torno de uma grande mesa para beber, comer e papear, e é sempre a mesma coisa: depois dos beijinhos e das frases curtas trocadas para aplacar saudades, os homens discutem o que há para discutir, opinar e analisar, e gentilmente deixam que as moças da roda permaneçam prestando atenção — contanto que façam silêncio. Se uma ou outra entra com um comentário, é recebida com um sorrisinho condescendente, antes que o sorridor volte aos seus: mas, como eu ia dizendo... Quando falam sobre talentos do jornalismo, da literatura ou de qualquer coisa, só citam homens, inclusive alguns presentes; mas se alguém lembra de uma tal jornalista ou escritora ou qualquer coisa fêmea, concordam: nossa, que charmosa, não? Às vezes ficamos tão cansadas que o jeito é pedir para o garçom trazer mais um.

6 comentários:

André D'Abô disse...

adorei a crítica. vou correr atrás de doroth. concordo com a coisa dos homens deixarem as mulheres em lugar secundário nas conversas e na literatura. trabalho no meio acadêmico e existe uma certa resistência à produção feminina, por maior que seja a erudição e a qualidade intelectual de seus trabalhos. azar dos machões...

Anônimo disse...

Sempre digo que a melhor coisa da internet - jornalisticamente falando - são os blogs, por permitirem textos e abordagens que ficam de fora da ordem do dia da grande imprensa.
Este seu texto é um belo exemplo disso. Onde poderia encontrar uma crítica tão bem escrita, contextualizada e inteligente sobre um livro? Só aqui mesmo.

Se te anima saber, Rosangela, de uma geração a outra de jornalistas - estudantes de jornalismo - as coisas mudaram bastante, felizmente. Meninos e meninas falam o mesmo tanto na mesa de bar, ignorado o fato de ali haver gêneros, há pessoas, cérebros pensantes, como deve ser mesmo. Se quiser, junte-se a nós e será bem vinda! Beijos, Dan

Rosani Madeira disse...

Grande Rosangela!

Ah, esse machismo velado, dissimulado, embrulhado em celofane é o mais difícil de combater. Sutileza contra sutileza, quando a vontade é encher de bofetada. Vamos adestrá-los.

Quero ler Dorothy Parker. Gostei do aperitivo.

Beijos.
Rosani

Rosangela disse...

André,
espero que ache e goste de Dorothy. Depois me conte...

Dan,
obrigadinha pelos elogios e pelo convite - uma hora aceito, hem!

Rosani,
tome cuidado com a tradução da Ester Mesquita, tenebrosa, que está numa coletânea de contos americanos. Só pra ter idéia, o título virou "Loira e Grandalhona" - pode?? rs... Como escreveu D.Parker sobre um certo romance, "não é para ser descuidadamente deixado de lado. É para ser jogado no lixo com toda a força"

beijos a todos!

Ricardo A. Setti disse...

Querida Rô,

Há tempos estava devendo um comentário a seu maravilhoso, inteligente e provocativo blog -- um retrato da autora.

Sua Dorothy Parker, e várias outras coisas que li hoje, na distante (e geladíssima) Barcelona onde me encontro, enriqueceram meu dia.

Agora uma perguntinha: você acha que a nossa turma ex-PLAYBOY se enquadra nesse Clube do Bolinha intolerável que, reconheço, os homens tendem a formar praticamente em qualquer situação?

Minha alegria ao reencontrar o pessoal é sempre tão grande que nunca reparei nesse aspecto, tão importante.

Sou, ou acredito ser, um feroz antimachista, entre outras razões pela experiência de ser pai de filha mulher, como se dizia no interior (ela tem um irmão, sabe você), cuja inteligência, luz própria, capacidade de aglutinar e outras qualidades me fazem antes de mais nada um seu grande admirador. Fora a coragem diante da vida que ela tem, muito maior do que a minha.

Beijão do

SETTI

Rosangela disse...

Sim, sim, queridíssimo Setti, é isso aí. Debulharei melhor a resposta num e-mail pra você, tá bem?
Saudade!