A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
(uma farsa em dois atos)
Primeiro ato: São Paulo, começo dos anos 1980. Já estamos quase enterrando o golpe militar, no chamado período de “distensão lenta e gradual”, com eleições, anistia e suspensão da censura. Resolvo inaugurar minha vida adulta: morar sozinha, montar meu primeiro apartamento, gozar de várias liberdades de uma tacada só. No entanto, junto do contrato de aluguel recebo uma ficha do DOPS (o temido Departamento de Ordem Política e Social) para preencher. Não que eu fosse alguma ameaça subversiva – imagina!, justo eu que mal entrei para a Libelu (a trotskista, roqueira e maconheira corrente militante Liberdade e Luta) e logo me expulsaram, tudo porque faltei a um encontro do grupo de estudos socialistas para ver o último capítulo de uma novela de Janete Clair. Não, a tal ficha é obrigatória pra todo mundo que muda de endereço, é assim desde que ditadura endureceu. E enquanto a “abertura” não abre de vez, as imobiliárias mantém o fluxo de informações em dia. Como também parece suspeito mulher morar sozinha – se não for terrorista, é puta, ou muito possivelmente as duas coisas juntas, embora a mistura seja extravagante –, tia Helena, minha madrinha, dá a solução: “Escreve aí que eu vou morar com você, toma o meu RG, meu CIC...” Mas vivo com medo, sinto-me vigiada. Evito encontrar o zelador, que sempre pergunta: “E a sua tia, quando muda pra cá?”, me obrigando a responder: “Ih, ela tá enrolada lá com umas coisas no interior, sabe?” A cara do zelador me intimida: ele sabe, sim. Ô, se sabe.Intermezzo: O tempo passa, somos livres, o Estado de Direito se instala, nada será como antes.
Segundo ato: São Paulo, dezembro de 2009. Chego a um condomínio classe média no Alto do Sumaré, com uma garrafa de vinho e uns regalos para minha querida amiga Rosani. No portão principal, um segurança pergunta meu nome, o nome de quem vou visitar, e em seguida fala para a lapela do paletó: “Rosangela para dona Rosani, copiando?” Um minuto depois, o portão destrava. Subo a escada até chegar a um segundo portão, próximo à guarita, e já vou dando aquele “boa noite” de quem apenas passa, quando sou detida pelo segurança da dita guarita: “A senhora tem cadastro?”
Como é que é? Acho que não ouvi direito. “A senhora tem cadastro aqui?” Como assim, cadastro? “Tem que fazer cadastro”, diz ele, abrindo um programa no computador. Começo a rir, mas logo percebo que o assunto é sério. “Nome?” Mas eu vim só visitar a Rosani... “Nome e sobrenome, por favor.” Pra quê? “É pro cadastro.” Pra quê cadastro? O senhor já sabe que eu sou a Rosangela que vai visitar a Rosani, provavelmente já checou com ela pelo interfone, certamente ela autorizou que eu subisse, não foi? “Foi.” Então, me diga, pra quê isso? “Agora é assim, precisa de cadastro.” Recito meu nome completo, ainda atordoada. “Seu RG...?” RG??? “E olhe para a câmera, por favor.” Câmera? Onde? “Isso, ótimo. Agora a senhora já tem cadastro aqui!”
Ele acha que acabou, mas preciso reagir de alguma maneira. Pergunto se ele é de alguma empresa de segurança terceirizada, ele é. Comento que montar tudo isso, vários seguranças, microfones, câmeras, computadores, puxa, tudo isso deve custar uma nota hem, ele sorri. Provoco: e se eu estivesse com um grupo grande, de umas dez pessoas, vamos dizer? E se, além disso, estivesse chovendo? E se todo mundo resolver brincar de inventar nomes e números? (“Escreve aí, meu nome é Helena Petta, RG 123.456.789-0, moro com minha sobrinha e afilhada num apartamento que já serviu de aparelho para o movimento Liberdade e Luta vender maconha e fazer grupo de estudos socialistas do rock.”). Ele continua sorrindo, mas menos: eu o irrito por mostrar que essa palhaçada ofende e abusa, mas ainda assim é uma palhaçada e, por isso mesmo, não me intimida. Ele sabe disso, ah, sabe!

4 comentários:
Tão ruim quanto é precisar usar caixa eletrônico do Itaú em horário comercial. Até espiral de caderno faz a porta travar! E, então, você tem que passar o cartão no armário lá fora, guardar a mochila em 13 segundos, entrar só com o cartão e torcer para que nenhum assaltante fuzile as vidraças da agência bancária ou te tranque no cofre. Daí, quando se vai discutir com o segurança, ouve, "É pra sua segurança". É uma palhaçada mesmo. E das mais tristes, não acha?
Ah, Dan... a palhaçada está no poder! Pôe trisTe nisso.
É verdade, segurança que controla porta de banco ou de prédio é "treinado" na mesma cartilha: dia tal é pra barrar os barbudos de mochila, no dia seguinte as mulheres bem vestidas com bolsa grande, no terceiro a velhinha com sacolas de plástico e guarda-chuva... E se suspeitar de alguém, complique a vida dele. Como se funcionasse! E as brechas dessa lambança, de atitudes inconvenientes e desagradáveis podem sair muito caro às empresas de "polícia particular".
Felizmente essa "ocorrência" desagradável com a Rô não interferiu por muito tempo no prazer de estarmos juntas e brindar às coisas boas, à nossa amizade e colocar a conversa em dia. Isso não tem preço.
Isso mesmo, Rosani! Sobreviveremos com galhardia, charme e arte!
beijos!!
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