02/02/2010

fraturas

Já passava da meia-noite de domingo quando a jornalista Flávia Tavares desabafou no Facebook: “Eu queria tanto ter passado meu domingo sem saber que o Alex foi paredão... Pq eu sou obrigada a saber isso? Por causa do mais glorioso dos ossos de qualquer ofício: o plantão. Argh!”

Lembro que, há uns bons dez anos, Ricardo Setti já detectava essa fratura exposta que infecciona cada vez mais o jornalismo: ali está você, formado em duas faculdades, cursando uma pós-graduação, fluente em três línguas, envolvido em intermináveis debates sobre comunicação – e, no dia seguinte, tudo o que lhe pedem é que apure por que a Sacha chorou. É da profissão. Dói menos se o osso puder ser roído numa “reportagem especial” (aquele salvo-conduto que, escorado na tradição do new journalism, permite que a gente relate e cutuque ao mesmo tempo) ou numa coluna assinada (onde a eventual gaiatice quase sempre é perdoada).

Mas imagino que doa ainda mais no outro lado, o do leitor. Acho que foi nessa perspectiva que a Flávia gemeu em seu plantão; afinal, não se espera que o jornal em que ela trabalha, o Estadão, considere o assunto digno de pauta. Além de jornalista, ela é leitora e tem todo o direito de não gostar do que lhe oferecem. Com uma desvantagem: enquanto parcelas do distinto público podem simplesmente largar a revista, sair do site, zapear o canal de TV ou girar o dial do rádio, ela é obrigada a ler/ver/ouvir tudo e um pouco mais, em nome de ser manter informada, pelo bom exercício profissional.

Ah, que inveja de todo mundo que não é jornalista! Invejo até quem gosta de acompanhar essas bobajadas – se gosta, não se aborrece. Mas ser, ter sido ou pretender ser jornalista implica estar, de alguma forma e em algum grau de intimidade, muito perto das coisas mais mixurucas. Desse jeito, somos nós, jornalistas, que ficamos no paredão, alvejados por uma saraivada interminável de ossos duros.




3 comentários:

Mary disse...

Pois é, pior do que ler é ter que escrever sobre esses assuntos fabricados, recheados de vazio.
Triste mesmo.

Débora disse...

Mary disse tudo, "recheados de vazios..."

Rosangela disse...

Moças... acho que só nos resta ocupar esses vazios.
Bjs!