06/04/2010

na Oficina de Criação Literária PUC-RS


O que aconteceu com o cão?

Já ouvira dizer que era isso o que outros, parecidos com ele, sabiam fazer de melhor. Mas só por estes dias ele sentiu um cheiro pela primeira vez, e era desagradável. Se aquilo era mesmo sentir cheiro – algo como mergulhar numa bacia de água densa, pegajosa e invisível, tão envolvente que se colava no corpo todo –, bem, se era disso que se tratava essa velha coisa nova, afinal, ora, ele achou que também era completamente desnecessária. Poderia muito bem ficar sem cheirar enquanto existisse. O problema é que o cheiro parecia vir de dentro dele mesmo: pouco acima das costas, na emenda com o pescoço, onde a costura começava a se desfazer, deixando escapar novelinhos de fios encardidos, úmidos e – disso não conseguia se desviar – mal-cheirosos. Sentia até mesmo que um olho, pendendo de um fio meio grudento, estava a ponto de se despregar da cara; perdê-lo era questão de dias, talvez horas. O mais intrigante é que ninguém mais parecia se importar com isso. Passavam meninos, mulheres, velhos, olhavam e iam passando, e não achavam nada demais ver um cão em decomposição. Justo ele, que já foi motivo de tantos beijos, tanta alegria e tantos apertos de bracinhos que dormiram com ele. A velhice é mesmo decepcionante. (11/março/2010)

[Making Of: No primeiro dia de aula, logo depois que nós, os 15 alunos da Oficina 2010, nos acomodamos diante dos computadores, o professor Assis Brasil entrou na sala, disse "boa tarde"  e sem mais essa nem aquela projetou na tela a pergunta - "o que aconteceu com o cão?" -, dando-nos entre 15 e 20 minutos para escrever uma resposta. Essa oficina é tão intrigante que, dê o resultado que der, já me sinto espantada e agradecida.]

4 comentários:

Rosani Madeira disse...

Puxa, Rô, belo e doloroso. Esse é só o primeiro???!!!
Adorei.

Rosangela disse...

Pois é, Rosani, o primeiro de uma série de dolorices...rs...
Beijos, e obrigada pela visita!

Danilo Thomaz disse...

Oficinas literárias são uma delícia mesmo. Fazendo o papel de um senhor nostálgico, lembro-me com saudades dos bons tempos em que cursava uma.

Não deixe, por favor, de nos contar mais histórias da sua, Rosangela. E aproveite!

Beijos, Danilo

Rosangela disse...

Dan, que legal sua visita ao blog!
Bjs,