03/05/2010

na Oficina de Criação Literária da PUCRS

[exerício proposto: "o personagem abre um álbum de retratos", em monólogo interior]

Onde será que guardei a caixa?

Essa casa tem armário demais. Quanta gaveta, quanta prateleira, pra quê? É só abrir uma porta e vem esse mundo de coisas enroscadas pra cima de mim, essas cores barulhentas, esse cheiro seco. Esse vestido aqui, pra quê? E esse? Nem lembro quando usei. Sandália velha, colares, bugiganga, quanto mofo. Tudo besteira. Isso tudo já foi, já era. Passado. Um passado inteirinho amontoado no escuro. Pra quê? Segunda-feira vou chamar o Exército da Salvação e dar tudo embora.

Certeza que a caixa deve estar aqui.

Ah, as pessoas do velório iam adorar esta cena. Saber que não fui capaz nem de fazer um álbum de família, que soquei as fotos numa caixa de sapatos, e numa caixa que nem lembro onde foi parar ainda por cima. Uns devem pensar que travei, entrei em estado de choque. Mas eu sei bem o que a maioria pensou enquanto fingia que não me olhava: foi tanto ácido que ficou imprestável, não consegue nem chorar no enterro da filha. Velha odara, hipponga patética, bem feito que ficou sozinha. Caguei pra eles.

A caixa. Quanta poeira. Esses ácaros vão acabar me fazendo mal, aposto.

O Zé eles entendem, todo mundo gosta do Zé. Se parecia meio ausente no velório é porque foi preso na ditadura, trauma de herói, o grande Zé, tadinho do Zé. Ainda teve o azar de casar com essa doidona que nunca fez nada na vida e só sabia fumar maconha enquanto a nenê ficava toda mijada no bercinho, ouvindo Yes depois do, olha só, puxa, tinha esquecido como o Zé foi bonito. Quem será que tirou essa foto nossa? Bahia. Não, Parati. Ou Bahia? Sei lá. Namoro. Até eu tô bonita.

Todo mundo nu na cachoeira. Carnaval em Ouro Preto. Formatura, nem meu pai acreditava. Ai, meu jeans preferido, calça boca-de-sino não devia cair de moda nunca. Festa pro Zé quando saiu da cadeia. Casamento no sítio. Casamento. Mais casamento. Nosso primeiro fusca. O Zé de terno e gravata, quem diria? Nós não íamos ser diferentes, Zé? Desbundar, mudar o mundo, botar pra quebrar? Sartre, Gramsci, arroz integral, Gláuber, samambaia, Trotski, Beatles, tofu, Stones, Gil, Caetano, passeatas, amor livre, o escambau. Era proibido proibir, lembra? Fala a verdade, Zé: no fundo, você sempre foi careta. Olha só essa sua cara de felicidade em Miami. Miami! O que a gente não aguenta quando não sabe fazer mais nada além de estar casada com o casamento.

Meu barrigão. A nenê. Mais nenê. Nenê, nenê, nenê, nenê. Mãozinhas, pezinhos, almofadinhas dançando no ar. E esses olhinhos pretos? Lindos. Levemente estrábica. Que foi, nenê? Tá olhando assim pra mim por quê? Eu não tive saída. Quer dizer, tudo bem, até tive. Nem gostava mais tanto assim do Zé. Podia cair fora, desistir de você, procurar o médico que todo mundo procurava nessas horas – mas, e a coragem? Por isso você nasceu, nenê, por covardia. Tarde demais pra te pedir desculpas, concorda?

São João na escolinha. Passeio de barco. O mesmo olhar. Será que você já sabia que nós duas não podíamos dar certo? Ah, nenê, sei lá... Tem amor que não acontece. Não vai a lugar nenhum, fica aqui dentro sem saber com quem falar. É amor, sim, claro que é. Só pode ser. Que nome você daria àquela espuma invisível que nos envolveu quando nos vimos pela primeira vez, você toda melada ainda, o rostinho contrariado dos recém-nascidos? Não sei explicar por que nunca mais senti isso. Eu queria tentar. Mas acho que me atrapalhei: veio o fusca, o Zé de gravata, a casa na praia, Miami, tudo igual ao que sempre foi desde que o mundo existe, sorrisos de plástico para a foto de Natal, sorrisos de plástico no parabéns-a-você, dias mal-assombrados, noites mudas, uma solidão enrolada em arame farpado – ah, nenê!

Chega. Sabia que esses ácaros iam acabar irritando meus olhos.


4 comentários:

claudio levitan disse...

puxa! que texto! ou melhor, todos os textos (prosas e poemas!) são ótimos. a eneida tinha me falado que tu escrevias muito! mas me surpreendi com esse muito! que baita blog! parabéns. abraço do cláudio levitan (marido da eneida e pai do lucas e carina)

Rosangela disse...

Claudio,

super obrigada pela visita ao blog e pelas palavras carinhosas! Visitei o seu e gostei muito também!

Abraços,

Sylvia disse...

Li o seu comentário no blog da Rosely Sayão, gostei do seu comentário e vim aqui te conhecer. Estou me deliciando, vou colocar seu blog em meus favoritos e voltar sp aqui, ainda mais que agora parece que a Rosely está se despedindo. Como diz o outro: Deus fecha uma porta, mas abre uma janela.

Rosangela disse...

Oi, Sylvia,
muito obrigada pela visita ao blog e pela mensagem. Minhas postagens andam intermitentes, mas espero não decepcioná-la...rs... Só não entendi o lance sobre o blog da Rosely: como assi, "se despedindo"?
Abraços,