25/05/2010

na Oficina de Criação Literária PUCRS


NÚMEROS

Os convites foram expedidos por meio de uma empresa de entregas transnacional, de modo que todos pudessem recebê-los no mesmo dia, pela manhã. Orçamento altíssimo, mas que fez valer cada fração aquém e além da vírgula na soma final: foi elaborada uma planilha minuciosa, levando em conta não apenas a distância e as especificidades geográficas e arquitetônicas de cada endereço, mas principalmente as condições locais que eventualmente pudessem interferir na sincronia do cronograma, como mudanças meteorológicas bruscas, greves em aeroportos, turbulências políticas e essas coisas de cuja existência só nos damos conta quando acontecem. Feitos os cálculos, primeiro seguiram dois pequenos lotes para o Oriente Médio e o Norte da África, além de um envelope para a Nova Zelândia. Em seguida, os destinados à Europa, Estados Unidos e Canadá. Depois, os para fora do estado, os das cidades mais próximas e, finalmente, os daqui mesmo. Nem eram tantos convites assim — precisamente, 582 —, mas a mãe da noiva e a mãe do noivo concordaram que o mais importante era o efeito ao mesmo tempo diplomático e surpreendente: nenhum convidado se sentiria menos importante que o outro, quando tomasse conhecimento de tamanha engenharia de logística, e ainda desmancharia os lábios em um mudo oh de admiração, pelo mesmo motivo. Elas mesmas guardariam para si, e para contar um dia aos netos, ou no clube, o prazer de imaginar 1.164 pares de olhinhos concentrados em seus respectivos 1.164 pares de mãos a abrir, quase que no mesmo instante, ao redor do mundo, um convite que, em si, trazia o status de objeto artístico.

Uma artesã de convicção budista, que vive reclusa na serra, foi quem confeccionou o papel, à base de casca de arroz e caroçinhos de romã, na proporção de duas xícaras de chá da primeira para cada colher de sopa dos segundos, formando uma mistura macerada, ensopada, estendida e ressecada à sombra, totalizando 228 quilos de matéria-prima e 55 dias de trabalho. De lá, folhas quadradas, grossas e perfumadas, delicadamente embaladas em 44 caixas impermeáveis, desceram de caminhão até a residência de um almirante aposentado que, menos por necessidade do que para ter um meio de se esquecer do mundo, costuma aplicar, em nanquim, o extravagante hobby da caligrafia em documentos, diplomas e, ao preço de 20,50 a unidade, convites de casamento — incluindo o envelope. Por precaução, havia material suficiente para até 700 convites. Mas o almirante não desperdiçou nada com borrões de tinta ou cochilos de escrita: acostumado a se esquecer do mundo, quando se lembrava dele simplesmente interrompia o trabalho, ia até a cozinha e ficava sentado, esperando passar. De modo que todo o excedente foi cirurgicamente dividido entre a mãe do noivo e a mãe da noiva, cada qual com seu quinhão de 59 conjuntos em branco de folhas de papel e envelopes artesanais de arroz e romã. Guardados para, talvez, um dia.

Os preparativos demandaram planejamento árduo, como ocorre em todo casamento bonito. Dois anos inteiros de dúvidas, discordâncias e muitas decisões tomadas com o temor silencioso que dorme dentro de quem quer o melhor para si e para os seus. Mas para quem não estava preocupado com isso — os convidados, os seis pares de padrinhos, os 103 prestadores de serviço contratados, o juiz, o padre e seu staff de sacristia, os oito organizadores da festa, os 14 seguranças, os dois iluminadores da pista de dança, os 22 cozinheiros, os empregados de casa, os vizinhos, os lavadores da sujeira da rua, os sonâmbulos no ponto de ônibus, os recém-nascidos, as cartomantes e os astronautas —, para muita gente tudo pareceu perfeita e previsivelmente encantador.

O vestido da noiva, cozido por 61 retroses de linha em 12 metros de chantung de seda adamascado, tinha 55 botõezinhos forrados com o mesmo tecido e 310 vidrilhos perolados importados da Itália. Eram cinco pessoas no ateliê: a estilista esguia, severa, com problemas no septo nasal; as gêmeas de Cochabamba; um rapaz com sobrancelhas de Beethoven; e outro rapaz. Os sapatos da noiva, em saltos sete e meio, tinham o mesmo tom claro-romântico que predominava no buquê de flores naturais, uma cascata de 45 centímetros de brotos de camélia colhidos sob o frescor da madrugada e conservados na câmara frigorífica da floricultura, a 11 graus centígrados, até pouco antes da cerimônia. A fim de proporcionar à noiva um halo de tradição e passado — pois é disso que se tratava, afinal —, 48 horas antes o véu tomara um banho de chá-preto do Ceilão: 8 metros de tule mergulhados em 36 litros de água rosada e escura, estendidos para secar ao natural. Tudo pronto, ao final da tarde da segunda terça-feira da primavera o Rolls Royce 1948, negro e sussurrante, seguiu para a igreja. Dois diamantes, um em cada orelha. Apenas 28 passos até o altar, onde erguia-se, do chão de mármore, um homem jovem de cabelo cortado há pouco, lavanda, fraque e MBA. Seis bocejos de criança. Um beijo de marido e mulher.

A quatro quarteirões dali, e mais uns 50 metros virando à direita, estendia-se a recepção para 600 convidados: 75 mesas de oito lugares cada, decoradas com arranjos de flores em cinco tons, do vermelho ao rosa. (Impossível saber quantos sorrisos, abraços entre paletós, apertos de mãos cordiais e corações partidos de amor não correspondido, pois o costume é que haja muitos nessas ocasiões.) Duas dúzias de olhares protocolares, o mesmo tanto de beijinhos frouxos, um aceno de saudade, cinco palavras de inveja. A pressão sangüínea da tia-avó do noivo — ou teria sido da noiva? não, não: era do noivo mesmo —, enfim, a pressão arterial de uma velhinha encolhida, muito apegada a seus dois gatos vira-lata, baixou para 9 por 6; uma pitada de sal sob a língua devolveu-a à festa em menos de 20 minutos e, sendo assim, pode-se dizer que não ocorreu nenhum incidente grave. No coquetel, 18 tipos de salgados, 24 litros de uísque, 60 garrafas de prosecco, 10 garçons experientes, 10 garçonetes rechonchudas, um globo de espelhos espirrando reflexos multiplicados em progressão infinita pelo salão.

E havia ainda tanto e tanto mais: os não-sei-quantos ingredientes utilizados no preparo do jantar, os pratos de porcelana inglesa, os talheres de prata envelhecida, a trilha sonora interminável que parecia uma música só, as horas avançando aos solavancos, os penteados, as jóias de família, os docinhos embrulhados um a um em papel celofane furta-cor, os rabiscos confusos deixados pelos sapatos no assoalho, as meias desfiadas, as fisgadas de dor nas costas, um cansaço tão antigo e feliz quanto os vulcões, a vontade de chorar.

Muito tempo depois, a mãe da noiva contou pedaços dessas lembranças para sua enfermeira na UTI. A mãe do noivo, para as paredes do hospício. Difícil lembrar onde teriam guardado os convites em branco que sobraram.

(novembro de 2009 - conto submetido ao processo seletivo)

10 comentários:

Entretantos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Entretantos disse...

Números? Um título tão surpreendente como tua imaginação e tua habilidade de contar uma história.
Degustei cada detalhe. Uma delícia.
bjs Eneida

claudio levitan disse...

muito bommmmm! do teu admirador

Rosangela disse...

Puxa, que bom que vocês gostaram!
Abraços comovidos,

Braddock Lewis disse...

Olá, professora, como vai.

Aqui fala um ex-aluno que teve o prazer em asssistir suas aulas no segundo ano da faculdade antes de largar o jornalismo e virar revendedor de pastilhas de freio usadas.

Escrevo agora com pressa, pois estou sendo perseguido por uma matilha de coiotes ensandecidos.

Bem, tropecei em seu blog por acaso, mas que feliz coincidência. Apreciei muito e voltarei regularmente para visitá-lo enquanto estiver na sala de espera do meu dentista.

Faço um convite para você ler alguns de meus textos também. Visite meu blog. Meu ajudante Ismirino tratará de recebê-la.

Bem, agora precisa ir, porque estou ouvindo... ESSA NÃO!!! ELES ME ENCONTRARAM!!!!!!!!

Dri Afonso disse...

Amei o blog.
Parabéns!
Cofira meu novo post no blog:
http://chatadescarpin.blogspot.com/
beijos

Dri Afonso disse...

Amei o blog.
Parabéns!
Cofira meu novo post no blog:
http://chatadescarpin.blogspot.com/
beijos

Rosani Madeira disse...

E tudo começou com essa beleza de conto. Quando teremos novidades???
Beijos.

Ana Maria Moreno disse...

Rô,
você é genial!
Beijo,
Ana Maria Moreno

Fanzine Episódio Cultural disse...

COMO PARTICIPAR NAS EDIÇÕES DO EPISÓDIO CULTURAL?
O Fanzine Episódio Cultural é uma publicação bimestral sem fins lucrativos, distribuído na região sul de Minas Gerais, São Paulo (capital), Belo Horizonte e Salvador-BA. Para participar basta mandar um artigo: poema, um conto que não ultrapasse 1 folha inteira no word (Times Roman 12). Pode mandar também artigos que abordem: cinema, teatro, esporte, moda, saúde, comportamento, curiosidades, folclore, turismo, biografias, sinopses de livros, dicasde sites, institutos culturais, entre outros.
Mande em anexo uma foto pessoal para que seja publicada juntamente com a sua matéria.. Mande também (se desejar) uma imagem correspondente ao assunto abordado. Caso o artigo não seja de sua autoria, favor informar a fonte.
PARA ENTRAR COM CARLOS (Editor)